Em novembro de 2024, com o vento frio a soprar, uma mulher de 72 anos, de pé diante do portão de ferro de uma base das Forças de Autodefesa em Shizuoka, tremia. Levantara-se às quatro da manhã, trocara de comboio três vezes e finalmente chegara. Nas mãos, um bentô feito com carinho e roupas novas para o neto. Na recepção, um oficial de serviço, de uniforme, pegou no documento de identificação da idosa, riu com desdém e abanou a cabeça.

— A essa idade, a senhora veio visitar quem? Tem a certeza de que as regras lhe permitem? Um colega ao lado acrescentou, com sarcasmo:
— Estes velhos são mesmo teimosos. Só vão incomodar o neto.
Mais valia ficar em casa a descansar. Naquele instante, os olhos da idosa encheram-se de sangue. Com as mãos a tremer, tirou do bolso um telemóvel antigo e carregou num número. Uma única chamada.
Pouco depois, a sala de visitas ficou em silêncio, tudo virou do avesso e a base inteira entrou em alvoroço. Quem era aquela mulher? E como é que uma única chamada conseguira abalar uma organização tão rígida? A história começa numa pequena vila rural em Nagano.
Em meados de novembro, os últimos caquis nos ramos pendiam, vermelhos. Suzuki Riko, 72 anos, começava o dia a varrer o jardim. As folhas caídas amontoavam-se num canto. Riko parou, olhou o céu limpo, mas o coração estava pesado.
O que estaria o Kenji a fazer? Estaria a sofrer na base? Riko tinha uma única pessoa preciosa no mundo: o neto, Tanaka Kenji. O filho morrera num acidente de viação há cinco anos; a filha vivia em Tóquio, ocupada a construir a sua vida.
Por isso, Kenji era a sua única esperança e razão de viver. Riko entrou em casa e olhou para a fotografia de Kenji na parede. Ele sorria, de uniforme, com a divisa de soldado de primeira classe. Já passara oito meses desde que ele entrara, mas parecia ontem.
“Kenji, a avó vai visitar-te no fim de semana. Espera mais um pouco. Fiz o teu guisado favorito e comprei os ingredientes para a omelete. ” Riko foi à cozinha e conferiu tudo o que preparara: guisado, espinafres, omelete.
Tudo temperado ao gosto de Kenji. Na porta do frigorífico, uma carta dele, presa com um íman: “Avó, estou bem na base. Não se preocupe. ” Riko lia-a várias vezes por dia.
“O meu Kenji escreve tão bem. Deve ter sofrido tanto por ter perdido o pai tão cedo. ” Os olhos encheram-se de lágrimas. Kenji perdera o pai no segundo ano do secundário.
Ficara fechado no quarto, e Riko cuidara dele com todo o carinho, ajudando-o a reerguer-se. Trabalhavam juntos no campo, passeavam, e as feridas sararam. Aos vinte anos, Kenji entrara nas Forças de Autodefesa. Riko esperava que ele se tornasse um homem maduro, mas não conseguia deixar de se preocupar.
“Se o pai dele fosse vivo, não me preocupava tanto. Os homens conversam entre si. ”
Para a visita, Riko tirou do armário o melhor casaco, um preto comprado há dez anos. Não podia aparecer diante do neto com um aspeto miserável.
Diante do espelho, viu as rugas, os cabelos brancos, as veias salientes nas mãos. Mas o amor por Kenji continuava igual ao de outros tempos. “Amanhã tenho de me levantar às quatro. Será que devo ligar ao Kenji?
” Pegou no telemóvel, mas voltou a pô-lo de lado. Não queria incomodá-lo durante o treino. Em vez disso, rezou em silêncio pela sua segurança. Naquela noite, Riko deitou-se cedo, o peito cheio de alegria e expectativa.
Mas uma ansiedade estranha atravessou-lhe o pensamento, como se algo de mau fosse acontecer. “Estou a pensar demais. O meu Kenji é um rapaz gentil e sério. Deve estar a dar-se bem na base.
” Fechou os olhos. Do lado de fora, apenas o vento frio da noite de outono. Às quatro da manhã, Riko acordou antes do despertador. Mal dormira, entre a excitação e a preocupação.
Ainda escuro, o vento batia na janela. “Kenji, a avó vai a caminho. Espera. ” Refez a mala, verificou as tampas dos recipientes, se a comida não se estragara.
Vinte minutos a pé até à paragem do autocarro, por uma estrada rural sem iluminação, guiando-se apenas por uma lanterna. Se perdesse o primeiro autocarro das cinco, perderia o comboio. No primeiro comboio, Riko não conseguia esconder a alegria. Olhando a paisagem a passar, murmurou: “Será que o Kenji emagreceu?
A comida da base agrada-lhe? Estará constipado? ” Na segunda estação, a espera foi longa. Sentada na sala de espera, observou os passageiros: um jovem casal com malas grandes, um soldado de uniforme a correr.
No terceiro comboio, uma mulher de meia-idade sentou-se ao lado dela e perguntou:
— Aonde vai com tanta bagagem? — Vou visitar o meu neto. Ele está nas Forças de Autodefesa. — Ah, sim?
Dizem que agora melhorou muito, mas deve preocupar-se, não? — Sim. Criei-o praticamente sozinha, por isso preocupo-me ainda mais. Riko contou-lhe sobre Kenji: a perda do pai, a criação pela avó, a sua gentileza.
A mulher acenou com compreensão. Às duas da tarde, chegou à estação mais próxima da base. Mais trinta minutos de autocarro. Riko perdeu a orientação por um instante.
“Qual era o número do autocarro que o Kenji me disse? 147? ” Tirou a carta dele e confirmou. Esperou vinte minutos na paragem.
No autocarro, várias famílias iam para visitas. Uma mãe jovem com os filhos, um casal de meia-idade com um furoshiki. Riko sentiu-se só, a única a viajar sozinha. Às três da tarde, viu finalmente o portão principal da base: arame farpado, segurança rigorosa, uma placa grande com o nome do regimento.
Na recepção, várias famílias já esperavam em fila. Riko juntou-se ao fim. Todos pareciam respeitáveis; ela, apenas uma velha cansada. O oficial de serviço, um jovem alto e corpulento, de vinte e poucos anos, examinou-a de cima a baixo com um sorriso trocista.
— Documento de identificação, por favor. Riko entregou-o com mãos trémulas. O oficial olhou-o, abanou a cabeça. — Onde está o formulário de pedido de visita?
E o certificado de parentesco? O Kenji disse que não era preciso, mas as regras mudaram. Especialmente para pessoas idosas, a verificação é mais rigorosa. Riko ficou confusa.
Na carta de Kenji não havia menção a esses documentos. As famílias atrás começaram a murmurar: “Como é que se prova que é avó? Será preciso levar o registo familiar? ” Nesse momento, um oficial superior, com divisas de tenente, aproximou-se.
Olhou Riko com frieza ainda maior. — Algum problema? — Este senhor diz que é avó do soldado Tanaka. A prova de parentesco é um pouco ambígua.
— Avó do soldado? Ultimamente há muitos suspeitos. Temos de ter cuidado. A senhora tem a certeza de que é mesmo avó?
O rosto de Riko ficou vermelho. Sentia-se tratada como uma intrusa. — Claro que sou. Tanaka Kenji é meu neto.
— Tanaka Kenji? Ah, esse. Bom, pode entrar, mas não demore. A sua idade também não ajuda.
Riko notou um tom estranho na voz dele, um desprezo mal disfarçado. Mas conteve-se, ansiosa por ver o neto. — Sim, entendi. Saio já.
Finalmente, entrou na sala de visitas. Mas o coração estava pesado. Desde o início, sentira-se indesejada. E a forma como o tenente chamara “esse” a Kenji ficou-lhe na mente.
A preocupação crescia. A sala era maior do que esperava, com várias mesas onde famílias conversavam. Riko sentou-se à mesa indicada e esperou. Cinco, dez minutos, e Kenji não aparecia.
Os outros soldados já tinham saído e cumprimentavam as famílias, mas Kenji não vinha. “Estranho. Ele disse que hoje era o dia de visita. ” Ansiosa, olhou em volta.
Então, a porta dos fundos abriu-se e um soldado entrou devagar. Era Kenji, com a divisa de soldado de primeira classe. Mas o seu aspeto era chocante: o olho esquerdo roxo e inchado, um corte no lábio, o andar hesitante. — Kenji!
O que foi isto? Riko levantou-se, pronta a correr para ele, mas Kenji ergueu a mão, a detê-la. Sentou-se lentamente à sua frente. — Avó, olá.
Obrigado por vir de tão longe. — Kenji, o que aconteceu ao teu rosto? Alguém te bateu? Estás magoado?
Kenji desviou o olhar, cabisbaixo. No canto da sala, o tenente observava-os de braços cruzados. — Não é nada, avó. Caí durante o treino.
— Caíste e ficaste com o olho assim? Kenji, conta-me a verdade. Kenji olhou de relance para o tenente e depois para Riko. Nos olhos dele, uma expressão de desespero, como se quisesse dizer algo mas não pudesse.
— Estou mesmo bem, avó. Obrigado por teres vindo. Riko pegou-lhe na mão. Notou marcas no pulso, como se alguém o tivesse agarrado com força.
— Kenji, e isto? Também foi do treino? — Avó, fala mais baixo. Os outros podem ouvir.
A raiva de Riko crescia. Não compreendia como o neto, com aquelas feridas, não podia dizer a verdade. — Kenji, diz-me só quem te fez isto. A avó pode ajudar.
— A avó não pode fazer nada. Por favor, vai para casa. A voz dele misturava resignação e desespero, como alguém completamente impotente diante de um muro. Nesse momento, o tenente aproximou-se, fingindo inspecionar as outras mesas, mas claramente a ouvir a conversa.
— Soldado Tanaka, a divertir-se com a visita? — Sim, senhor. Estou bem. — Então, ótimo.
A senhora, o Tanaka é um exemplo na base. Não se preocupe. As palavras do tenente não combinavam com o rosto ferido de Kenji. Riko sentiu que algo estava muito errado.
— Tenente, o meu neto tem feridas no rosto. O que aconteceu? — Ah, isso? Foi do treino de combate.
Os treinos são duros. Um homem tem de aguentar, não é? O tenente sorriu, mas o sorriso continha uma ameaça. Kenji encolheu-se ainda mais.
Riko tinha a certeza: algo estava errado. — Avó, estou bem. Não precisas de voltar a visitar-me. — O quê?
Não voltar? Kenji, o que estás a dizer? — A avó é idosa, a viagem é difícil. Estou bem mesmo.
A voz de Kenji foi ficando mais baixa, como se alguém o obrigasse a dizer aquilo. Riko apertou-lhe a mão. — Kenji, olha-me nos olhos. Estás mesmo bem?
Kenji olhou-a, mas desviou o rosto. Riko viu lágrimas nos olhos dele. — Avó, vai para casa. Por favor.
O coração de Riko apertou-se. Algo grave se passava, e Kenji não podia sequer pedir ajuda. — Kenji, não sei o que posso fazer, mas não desistas. Entendeste?
Riko pôs-lhe algum dinheiro na mão e sussurrou:
— A avó nunca te vai abandonar. Lembra-te disso. O tempo de visita terminou. Kenji levantou-se, despediu-se, e afastou-se com um ar de derrota.
Riko, a vê-lo partir, fechou os punhos. Tinha de fazer alguma coisa. Mas o quê? Ao sair da sala, Riko parou.
Tirou da mala o bentô que preparara. Kenji mal tocara na comida. “Se ele está tão mal que nem come, como posso ir embora? ” Tentou voltar a entrar, mas o oficial de serviço bloqueou-a.
— A senhora, o tempo de visita acabou. Não pode entrar. — O meu neto está tão triste. Só mais um pouco, por favor.
— São as regras. Volte no próximo dia de visita. Nesse momento, apareceu um oficial superior, com divisas de primeiro-tenente, um homem de trinta e poucos anos, alto e de olhar afiado. — Que barulho é este?
— Este senhor é a avó do soldado Tanaka. Quer voltar a entrar. — Tanaka? Ah, esse problema.
O tenente olhou Riko de cima a baixo com desprezo. Os outros visitantes começaram a olhar. — A senhora, com a sua idade, vem até aqui para incomodar o neto? O Tanaka é um caso problemático na base.
— Problema? O meu neto fez alguma coisa de mal? — A senhora não sabe de nada, pois não? O Tanaka é conhecido como um criador de problemas.
Desrespeita os superiores, não obedece às ordens, não treina a sério. Riko não acreditava. O Kenji que conhecia era gentil, até de mais. — Isso não é verdade.
O meu neto é um rapaz educado e gentil. — Em casa, talvez. Mas nas Forças de Autodefesa é diferente. Estes jovens de hoje, todos criados com mimos, só causam problemas.
A voz do tenente subiu, e todos os olhares se voltaram para Riko. Outras famílias pararam para ver. — E, sinceramente, a senhora, com a sua idade, se continuar a vir aqui e a fazer barulho, só vai piorar a situação do Tanaka. Percebe o que os outros soldados vão pensar?
— Estou a fazer barulho? Eu só me preocupo com o meu neto. — Se está preocupada, fique em casa. Vir aqui e armar escândalo só faz com que o Tanaka seja ainda mais mal visto.
Não entende? As famílias ao redor murmuravam: “O que se passa com aquela velha? Que vergonha, vir incomodar o neto. ” Riko sentia todos os olhares sobre si, tratada como uma velha problemática.
— A senhora, com a sua idade, não devia fazer estas viagens. O Tanaka está bem entregue. Nós cuidamos dele. — Cuidam?
Com o rosto cheio de feridas? Isso é cuidar? — Isso é normal no treino. Quem quer ser soldado tem de aguentar.
A senhora está a ser paranoica. O tenente falava como se Riko fosse uma velha sem juízo. As pessoas à volta acenavam, concordando. — E, para ser honesto, se a senhora continuar a vir, estraga o ambiente da base.
Incomoda as famílias dos outros soldados. Riko tremia de humilhação. Nunca na vida fora tratada daquela forma. E o pior era ser acusada de prejudicar o neto.
— O que é que eu fiz de errado? — Não é uma questão de errado. É uma questão de bom senso. O Tanaka já é visto como um problema.
Se a senhora ainda aparece e faz isto, só piora. Riko não aguentou mais. Com as mãos a tremer, tirou o telemóvel antigo da mala. Uma memória esquecida veio à tona.
“Então é assim, não é? Vamos ver. ” Carregou num número que não usava há muito tempo, mas que ainda lembrava: o número do camarada de armas do marido, o seu benfeitor de toda a vida. Quando a chamada foi atendida, a voz de Riko tremia, mas com raiva e determinação.
— Alô? É o General? Fala Suzuki Riko, esposa de Suzuki Minoru. Do outro lado, uma voz surpreendida.
Riko continuou, olhando fixamente para o tenente:
— Estou na base de Shizuoka. Os oficiais daqui insultaram-me gravemente. Vim visitar o meu neto e fui tratada assim. O rosto do tenente endureceu.
Percebeu que algo estava errado. Quando a chamada terminou, um silêncio estranho pairou. O tenente olhou-a com suspeita. — Com quem estava a falar?
— Vai saber já. Riko sentou-se num banco, sem dizer mais nada. O coração estava confuso. Há trinta anos que não ligava àquele número.
Desde a morte do marido, cortara todos os laços com as Forças de Autodefesa. Mas hoje, pela primeira vez, usara esse passado. Lembrou-se dos anos setenta, quando era esposa de um oficial. Suzuki Minoru formara-se na Academia de Defesa, destacara-se como comandante, participara em missões de paz e recebera condecorações.
Era um oficial de elite, com uma carreira promissora. “Minoru, se estivesses vivo, não deixarias o Kenji sofrer assim. ” Lembrou-se do amigo do marido, Sato Masashi, mais novo, mas que subira mais rápido, chegando a general. Quando Minoru morrera de ataque cardíaco, Sato segurara a mão de Riko no funeral: “Se precisar de alguma coisa, contacte-me.
A família do meu superior é como a minha. ” Mas Riko, orgulhosa, recusara toda a ajuda das Forças de Autodefesa e criara os filhos sozinha. Sato tentara contactá-la algumas vezes, mas ela recusara sempre, e o contacto perdera-se. Trinta anos de teimosia, e hoje o orgulho caíra.
“Se tivesse mantido os laços, talvez pudesse ter ajudado o Kenji quando ele entrou. ” Sentia que a sua teimosia contribuíra para a situação. Nesse momento, um jipe aproximou-se em alta velocidade. Dele desceu um homem de quarenta e poucos anos, com divisas de tenente-coronel.
O rosto tenso. — É a senhora Suzuki Riko? — Sim. — Sou o comandante do batalhão, Ito.
Recebi ordens do General Sato. A chegada do comandante mudou tudo. O tenente que insultara Riko ficou pálido. — Comandante, o que se passa?
— Tenente Yamada, ouvi dizer que insultou a senhora Suzuki. É verdade? — Insulto? Eu só estava a explicar as regras de visita.
O comandante curvou-se diante de Riko. Ela sentiu um misto de alívio e amargura. Finalmente era tratada com respeito, mas só depois de usar aquela carta. — Senhora, peço imensas desculpas.
Os meus subordinados foram grosseiros. O soldado Tanaka é um dos nossos melhores elementos. Lamento muito o que aconteceu. — Melhor elemento?
Então porque tem o rosto cheio de feridas? O comandante hesitou, como se soubesse de algo. — Vou investigar a fundo. Por agora, a senhora pode descansar num local mais confortável.
— Comandante, quero saber exatamente o que se passa com o Kenji. Foi por isso que liguei ao General Sato. A voz firme de Riko fez o comandante hesitar. A influência do General Sato era conhecida em todas as Forças; uma palavra dele podia virar qualquer unidade.
Nesse momento, outro veículo chegou. Era o comandante do regimento, com divisas de coronel. A sua presença causou ainda mais alvoroço. — Senhora Suzuki, há quanto tempo.
Sou o Coronel Kimura. Trabalhei com o Major Suzuki. — Coronel Kimura! Lembro-me de si.
Riko lembrava-se dele, um subordinado do marido há trinta anos, agora coronel. O tempo passara. — O General Sato informou-me. A neta do Major Suzuki…
quer dizer, o neto, está no meu regimento. E com feridas no rosto. O coronel ficou sério. Suzuki Minoru era uma lenda nas Forças de Autodefesa, um herói, um modelo para muitos.
A sua família a sofrer na sua unidade era um problema grave. — Vou investigar imediatamente. Vou descobrir o que aconteceu ao soldado Tanaka. Riko sentia-se confusa com a mudança repentina.
Horas antes, era ignorada e insultada; agora, até o coronel a tratava com respeito. — Não quero tratamento especial. Só quero que o Kenji esteja seguro. — Claro.
Todos os soldados têm direito a segurança, especialmente o neto do Major Suzuki. Mas o coração de Riko estava pesado. No fundo, só conseguira proteger o neto graças à fama e às ligações do marido. “Será que isto é o caminho certo?
E os outros soldados, sem ninguém atrás deles, vão continuar a sofrer? ” A pergunta ficou no ar, sem resposta. Enquanto o coronel e o comandante se reuniam, Riko esperava na sala de descanso. O ambiente das Forças, que não via há trinta anos, era estranho e familiar ao mesmo tempo.
Olhava as fotografias na parede, pensativa. Então, a porta abriu-se e entrou um homem de cinquenta e poucos anos, com divisas de major, o rosto marcado por anos de serviço. — Com licença. É a senhora Suzuki Riko?
— Sim. — Sou o Major Yamada, responsável pelo soldado Tanaka. Preciso de lhe contar algo. O major olhou em volta, sentou-se ao lado dela, com uma expressão preocupada.
— Senhora, o que sabe sobre o soldado Tanaka? Sobre a sua origem? — Origem? — Ao processar os documentos de alistamento do Tanaka, notei algo estranho.
Vi o registo familiar. Havia algo que não batia certo. O coração de Riko saltou. “Não pode ser.
” Mas o major continuou:
— O pai do Tanaka, Tanaka Ichiro, tem o campo do pai vazio. E a mãe é Kinoshita Sayuri. O rosto de Riko empalideceu. Kinoshita Sayuri.
Um nome que ela nunca esquecera, uma dor antiga. Quarenta anos antes, antes de se casar com Minoru, ele namorara uma mulher chamada Kinoshita Sayuri. Riko soubera, mas pensara que era passado. — Disse Kinoshita Sayuri?
— Sim. Mas o mais estranho é que o Tanaka Ichiro, antes de morrer, me deixou uma carta. Pediu-me para a entregar se o Kenji entrasse nas Forças de Autodefesa. O major tirou do bolso um envelope amarelado, com a escrita “Para Suzuki Riko”.
Riko reconheceu a caligrafia: era de Ichiro, que desde o secundário a tratava por “avó”. Com as mãos a tremer, abriu a carta. “Querida avó Riko. Se está a ler isto, é porque eu já não estou neste mundo.
Vou contar-lhe uma verdade que escondi a vida toda. Eu sou filho de Suzuki Minoru. A minha mãe, Kinoshita Sayuri, era o primeiro amor dele. Quando soube que ele se casara com a avó, escondeu-se.
Criou-me sozinha, para não destruir a sua família. Só soube a verdade quando adulto. E percebi porque a avó me tratava como um neto: via em mim, inconscientemente, uma semelhança com o meu pai. Por isso, o Kenji é o seu verdadeiro neto, de sangue.
Quando eu morrer, não tinha a quem confiar o Kenji, mas sabia que a avó o amava. Ele carrega o sangue de Suzuki Minoru. Por favor, cuide dele. ”
Riko leu a carta, o corpo a tremer.
“Kenji… é mesmo do nosso sangue. Por isso o amei tanto desde o início. ” Lembrou-se de Sayuri, a antiga namorada de Minoru.
Nunca imaginara que ela tivera um filho dele, e que esse filho era Ichiro, o homem que Riko criara como neto. E agora, o filho de Ichiro, Kenji, era o seu verdadeiro neto. — Então, o soldado Tanaka é mesmo neto do Major Suzuki? — Sim.
Agora percebo porque o amei tanto. É do nosso sangue. O major suspirou, com um misto de culpa e arrependimento. — Senhora, eu devia ter-lhe entregue esta carta mais cedo.
Vi o Tanaka a sofrer na base, mas não soube o que fazer. — Sofrer? Que sofrimento? — O Tanaka tem sido vítima de bullying.
Alguns superiores, especialmente o tenente Kato, humilham-no por não ter pai e ter sido criado pela avó. A raiva de Riko subiu. Agora que sabia que Kenji era do seu sangue, o sofrimento dele doía ainda mais. — O tenente Kato?
O mesmo que me insultou? — Sim. Ele tem perseguido o Tanaka de forma cruel, quase abusiva. Riko fechou os punhos.
“O meu sangue a sofrer, e eu sem saber. ” Sentia-se envergonhada. — Major, temos de contar isto ao coronel. O Kenji é meu neto, carrega o sangue de Suzuki.
— Mas, senhora, se isto vier a público, o segredo do Tanaka Ichiro e da Kinoshita Sayuri também será revelado. Está disposta? Riko pensou um momento. Revelar um segredo de família escondido há quarenta anos?
Mas a segurança de Kenji era mais importante. — Não faz mal. Não há razão para esconder. O Kenji tem o direito de viver orgulhosamente como descendente de Suzuki.
Nesse momento, o coronel entrou na sala. Viu a expressão séria de Riko. — Senhora, o que se passa? — Coronel, preciso de lhe contar algo sobre o Tanaka Kenji e a nossa família.
Riko mostrou-lhe a carta de Ichiro. O coronel leu-a, os olhos a arregalarem. — Isto é verdade? O Tanaka é neto do Major Suzuki?
— Sim. É a verdade escondida há quarenta anos. Agora percebe o quanto ele significa para mim? O coronel ficou pálido.
“O neto do Major Suzuki a ser maltratado na minha unidade? ” Era impensável. — Vou investigar todos os envolvidos imediatamente. Isto é uma vergonha.
Riko finalmente tinha uma arma poderosa para proteger o neto. Mas, ao mesmo tempo, a ferida da família, escondida por quarenta anos, estava exposta. Sentia uma mistura de alívio e preocupação. Depois da revelação, a base mudou completamente.
Por ordem do coronel, Kenji foi levado para a enfermaria e submetido a exames. O tenente Kato e outros envolvidos foram postos sob investigação. Riko, a beber chá na sala do coronel, observava. Viu uma fotografia de Suzuki Minoru na parede.
“O Kenji parece-se tanto contigo. ” O coronel informou:
— Senhora, os resultados do exame do Tanaka. Felizmente, não há feridas graves, apenas contusões. — Ainda bem.
Temia que fosse pior. — E o tenente Kato e os outros serão punidos disciplinarmente. Isto não pode ficar impune. Riko suspirou de alívio.
Mas o coronel parecia preocupado. — Coronel, há mais alguma coisa? — Na verdade, senhora, não tenho a certeza de que isto seja apenas um desvio do Kato. Pode ser mais profundo.
Nesse momento, o comandante do batalhão entrou apressado, com documentos na mão. — Coronel, encontrámos um problema grave durante a investigação. — O quê? — O abuso do tenente Kato não foi um ato isolado.
Foi uma prática organizada, com o conhecimento de alguns superiores. O coração de Riko apertou-se. “Pensei que estava resolvido, mas é o início de algo maior. ”
— Organizada?
Quem está envolvido? — Ainda não é certo, mas pode ir além do nível do batalhão. O coronel ficou tenso. Se o problema atingisse o nível do regimento, a sua posição estaria em risco.
— Então, o que fizemos até agora foi em vão? — Não, senhora. O Tanaka está seguro, e os agressores diretos serão punidos. Mas, para resolver a raiz, serão necessárias medidas maiores.
Nesse momento, o telemóvel do coronel tocou. O ecrã mostrava “Comandante da Divisão”. O coronel atendeu, o rosto ainda mais sério. — Sim, senhor.
Entendido. Vou já para aí. Ao desligar, olhou para Riko com ar de desculpa. — Senhora, o comandante da divisão quer um relatório direto.
O General Sato contactou-o pessoalmente. Isto já não é um problema só do nosso regimento, mas de todas as Forças de Autodefesa. Riko sentia-se sobrecarregada. “Tentei proteger o Kenji, e agora isto tornou-se tão grande.
” Por um lado, aliviada; por outro, preocupada. O major Yamada entrou novamente, com mais documentos, o rosto ainda mais grave. — Coronel, encontrámos mais factos. — O quê?
— Ao investigar o caso do Tanaka, descobrimos que houve incidentes semelhantes no passado. Mas todos foram encobertos. — Encobertos? — Sim.
Quando as vítimas denunciavam, eram punidas ou transferidas à força. A raiva de Riko subiu. “Não foi só o Kenji. Quantos jovens sofreram o mesmo?
”
— Quantos soldados foram afetados? — Ainda estamos a contabilizar, mas deve ser um número considerável. O coronel suspirou fundo. Percebeu que o problema era maior do que podia gerir.
— Senhora, peço desculpa. Não imaginava que fosse tão complexo. — Coronel, não tem de se desculpar. Pelo contrário, agradeço por trazer a verdade à luz.
Mas o coração de Riko estava pesado. “Comecei para proteger o Kenji, e agora isto tem ondas tão grandes. Será que foi a decisão certa? ” Nesse momento, ouviu-se uma sirene ao longe.
Vários veículos entravam na base, incluindo viaturas da polícia militar. — Coronel, os investigadores da polícia militar chegaram. — Então, começa. Riko olhou pela janela.
“Quem diria que proteger uma pessoa levaria a isto? Mas não há volta atrás. Tenho de ver até ao fim. ”
— Coronel, estou determinada a ver isto até ao fim.
Pelo Kenji e por todos os outros jovens. O coronel acenou, respeitoso. Um vento de mudança começava a soprar. Depois da chegada da polícia militar, a base ficou em alvoroço.
Investigações por todo o lado, pessoas chamadas para interrogatório. Riko pôde reencontrar Kenji numa sala de visitas improvisada. As feridas do rosto dele estavam melhores, mas, mais importante, o olhar mudara: já não havia desespero, mas esperança. — Avó, desculpa.
Foi por minha causa que passaste por tudo isto. — Não digas isso, Kenji. Não tens culpa de nada. Riko pegou-lhe na mão.
Agora que sabia que era do seu sangue, o toque parecia mais quente. — Kenji, tenho de te contar uma coisa. Descobri a verdade sobre ti. — Verdade?
O quê? Riko contou-lhe sobre a carta de Ichiro e o segredo de família. Os olhos de Kenji arregalaram-se, e lágrimas caíram. — Então…
então tu e eu somos mesmo de sangue? — Sim, Kenji. És do nosso sangue, uma parte importante da família. Foi por isso que te amei tanto.
Kenji enterrou o rosto no peito de Riko e chorou, libertando a dor acumulada. — Avó, tive tanto medo. Quando sofria sozinho na base, não podia contar a ninguém. Sentia-me tão sozinho.
— Agora estás seguro, Kenji. A avó está aqui. Não estás sozinho. Riko abraçou-o, com sentimentos mistos: alegria, alívio, e raiva pelo sofrimento que ele passara.
O major Yamada entrou, com um sorriso. — Kenji, agora está tudo bem. Os que te maltrataram serão punidos. — Major, obrigado por tudo.
Sem ti, não teria aguentado. — Eu é que devia ter agido mais cedo. Desculpa. — Não é culpa de ninguém.
Chegou o dia em que tudo veio ao de cima. Graças a si, o Kenji aguentou. O coronel entrou, com documentos oficiais, o rosto mais animado. — Boas notícias.
A investigação confirmou que o Tanaka é completamente inocente. Os agressores serão severamente punidos. E, se o Kenji quiser, pode ser transferido para outra unidade. Kenji pensou um momento.
As memórias dolorosas vieram, mas também a gratidão por quem o ajudara. — Coronel, quero continuar aqui. Não quero fugir. — Não precisas de te forçar, Kenji.
O importante é estares bem. — Não, está bem. Agora sei que não estou sozinho. Tenho a avó, tenho o major Yamada.
E sinto que posso cumprir o meu dever com orgulho. Riko sentiu orgulho. Kenji amadurecera através do sofrimento, tal como o avô. — Boa decisão, Kenji.
Vamos garantir que isto nunca mais aconteça. E, senhora, muito obrigado. — Não tem de agradecer, coronel. Eu é que agradeço por proteger o Kenji.
Nesse momento, o telemóvel de Riko tocou. O ecrã mostrava “General Sato”. Atendeu. — General?
— Riko, soube de tudo. Parabéns pela coragem. O Major Suzuki deve estar a sorrir lá do céu. — Graças a si, consegui proteger o Kenji.
Muito obrigada. — Não diga isso. Era o mínimo. Mas, Riko, o problema do Kenji está resolvido, mas vão começar mudanças maiores.
— Mudanças maiores? — Sim. Este incidente vai levar a uma reforma do sistema de direitos humanos em todas as Forças. Para que jovens como o Kenji nunca mais sofram.
Riko sentiu o peito aquecer. “Tentei salvar o Kenji, e no fim ajudei muitos outros. ”
— Então, o sofrimento do Kenji não foi em vão. Depois da chamada, Riko olhou para Kenji.
Sentia orgulho por ele ser não só o seu neto, mas também um símbolo de mudança. — Avó, vais continuar a visitar-me? — Claro, Kenji. Agora posso vir com orgulho.
Somos uma família de que nos podemos orgulhar. Kenji sorriu, radiante. Já não havia medo nem desespero, apenas esperança e gratidão. Riko sentiu o coração quente.
Finalmente, tinha uma ligação verdadeira com o neto. E era o início de algo novo. — Lembra-te, Kenji: a avó estará sempre atrás de ti. Não estás sozinho.
— Sim, avó. Vou tornar-me alguém de quem te possas orgulhar. Trocaram um sorriso caloroso. A verdadeira felicidade, conquistada após uma longa provação, estava ali.
Um mês depois, a base parecia ter renascido. Foram introduzidos sistemas para prevenir o abuso e proteger os direitos dos soldados. Riko visitava Kenji todas as semanas. Já ninguém a olhava com suspeita; pelo contrário, era a visitante mais respeitada do regimento.
Nesse dia, levou o bentô preparado com carinho. Kenji recebeu-a com um sorriso radiante, o rosto sem marcas. — Avó, vieste outra vez. Desculpa o incómodo.
— Que incómodo, Kenji? A avó adora ver-te. Hoje trouxe o teu frango frito favorito. Conversaram naturalmente, enquanto comiam.
Kenji contou que a vida na base melhorara muito, e que a sua experiência estava a ser usada como material educativo. — Avó, agora temos muitas formações sobre direitos humanos. O que me aconteceu está a servir de exemplo. — Então, o teu sofrimento está a ajudar outros.
Ainda bem. Riko sentia orgulho, mas também uma ponta de tristeza: Kenji, tão jovem, já tinha amadurecido demasiado. O major Yamada entrou, agora um mentor para Kenji. — Senhora, hoje também veio?
O Kenji fica ansioso nos dias de visita. — Graças a si, o Kenji está bem. Obrigada. — Não fiz nada.
O Kenji é que é um rapaz exemplar. Eu é que aprendo com ele. Quando Kenji se ausentou por uns momentos, o major falou com Riko, com ar sério:
— Senhora, há algo que preciso de lhe contar. É delicado.
— O quê? O Kenji está com problemas outra vez? — Não, o Kenji está bem. Mas correm rumores de que os oficiais punidos estão a planear vingança.
Não contra o Kenji diretamente, mas talvez contra a senhora ou a sua família. Riko ficou chocada. “Será que, ao proteger o Kenji, trouxe mais perigo? ”
— Então, fui eu que pus o Kenji em perigo?
— Não, senhora. O que fez foi justo. Mas os adversários podem usar meios sujos. Por isso, aviso-a.
Kenji voltou, vendo as caras sérias. — O que se passa? Estão os dois tão sérios. — Não é nada, Kenji.
Estávamos a falar de assuntos do regimento. Riko escondeu a verdade para não preocupar o neto, mas o coração estava pesado. A luta para proteger Kenji ainda não acabara. No comboio de regresso, Riko pensou muito.
“O que devo fazer agora? Até quando vai durar isto? ” Em casa, sentou-se diante das fotografias de Kenji e Ichiro. Leu novamente a carta de Ichiro.
“O Kenji carrega o sangue de Suzuki Minoru. Por favor, cuide dele. ” Riko decidiu rever os pertences de Ichiro, à procura de pistas. No sótão, encontrou uma caixa com objetos dele.
Ao organizá-los, achou um pequeno caderno. Ao folheá-lo, parou: numa página, estava escrito, com a caligrafia de Ichiro: “Tenente Kato – pessoa perigosa – cuidado com Kenji. ” A data era um mês antes da morte de Ichiro. “Como é que o Ichiro conhecia o tenente Kato?
” Riko examinou o caderno mais a fundo. Encontrou outra anotação: “Colega do secundário. Rancor por causa do meu pai. Nunca contar ao Kenji.
” Riko começou a perceber: o sofrimento de Kenji não fora um acaso, mas talvez ligado ao passado entre Ichiro e Kato. Na última página: “Se eu morrer, ele pode atacar o Kenji. Se souber que é neto de Suzuki Minoru, será ainda pior. ” Ichiro sabia de tudo.
Porque não contara antes? Riko não entendia, mas agora era importante. Ligou imediatamente ao major Yamada. — Major, encontrei uma pista importante nos pertences do Ichiro.
Há uma ligação entre o tenente Kato e o Ichiro. — O quê? Que ligação? — Eram colegas do secundário.
O Kato tinha rancor por causa do pai do Ichiro. O major ficou surpreendido. “Isto pode mudar a natureza do caso. O abuso pode ter sido uma vingança pessoal.
” Riko desligou, decidida. “Kenji, a avó vai proteger-te até ao fim. Desta vez, vou resolver tudo. ” Nos olhos dela, ardia uma nova determinação.
A investigação revelou factos chocantes. O pai do tenente Kato, no passado, enganara Kinoshita Sayuri, a mãe de Ichiro, roubando-lhe dinheiro quando ela criava sozinha o filho de Suzuki. Sayuri empobrecera, e Ichiro sofrera na infância. Quando adulto, Ichiro soubera a verdade, mas o pai de Kato já morrera.
A vingança recaía sobre o filho, Kato. Mas Ichiro não escolhera a vingança; vivera em silêncio, criando Kenji corretamente. Por ironia do destino, Kenji fora colocado na mesma unidade de Kato. Kato, ao ver o nome “Tanaka Kenji”, reconhecera o filho de Ichiro.
E, com um sentimento distorcido de culpa pelo pai e um complexo de inferioridade em relação a Ichiro, descarregara tudo em Kenji. Com todas as verdades reveladas, Kato foi julgado em corte marcial e condenado. O abuso fora reconhecido como vingança pessoal e deliberada. Três meses depois, em novembro, Riko voltou à base.
Desta vez, para um evento especial: fora convidada a falar no programa de educação em direitos humanos, diante de duzentos soldados. Subiu ao palco e contou a sua história e a de Kenji, sobre amor familiar, coragem e o poder da verdade. — Sou apenas uma mulher comum de 72 anos. Não tenho habilidades especiais nem posição elevada.
Mas tenho uma coisa: o amor pela minha família. O auditório estava em silêncio. Os jovens soldados ouviam atentamente. — Quando o Kenji sofria, eu sofria com ele.
Mas não desisti. Porque proteger quem amamos é um dever de todos, independentemente da idade ou posição. Riko olhou para Kenji, sentado na primeira fila, com um sorriso orgulhoso. — Vocês são filhos de alguém, família de alguém.
Proteger e cuidar uns dos outros é o verdadeiro espírito das Forças de Autodefesa. No fim, os soldados aplaudiram de pé. Riko emocionou-se. Depois, Riko e Kenji passearam pelo caminho da base, entre árvores de outono.
— Avó, a tua palestra foi ótima. Tenho orgulho em ti. — Kenji, só o facto de estares bem já me deixa orgulhosa. Sentaram-se num banco, conversando.
Os dias de pesadelo pareciam distantes. — Avó, quando sair daqui, quero arranjar um emprego perto de ti, para te visitar muitas vezes. — Eu também quero isso, Kenji. Agora somos uma verdadeira família.
O major Yamada aproximou-se, sorridente. — Senhora, a sua palestra tocou muitos soldados. Obrigado. — Major, obrigada por ter cuidado do Kenji.
Ele cresceu e tornou-se um homem de bem. — O Kenji sempre foi gentil e sério. Eu é que aprendi muito com ele. Conversaram calorosamente, sentindo a importância dos laços forjados na adversidade.
Ao anoitecer, Riko preparou-se para partir. Despediu-se de Kenji, com um último conselho:
— Kenji, continua a viver com retidão e seriedade. Como descendente do teu avô, Suzuki Minoru, sê orgulhoso. — Sim, avó.
Vou tornar-me alguém de quem o avô, o pai e tu possam orgulhar-se. Riko saiu da base com passos leves, diferente do coração pesado de meses antes. No comboio, olhando a paisagem, refletiu: “O que comecei para proteger o Kenji trouxe mudanças para muitos. Minoru, o nosso neto tornou-se um homem de bem.
Graças à tua ajuda, tudo correu bem. ”
Em casa, Riko olhou as fotografias na parede: Minoru, Ichiro e Kenji, agora unidas numa só história. O segredo de família revelado, as feridas saradas. Enquanto preparava o jantar, murmurou: “Quando o Kenji sair, vou cozinhar muitas coisas boas para ele.
Ele sofreu tanto na base. ” Lá fora, a primeira neve começava a cair, anunciando o inverno. Riko, com uma chávena de chá quente, começou a escrever uma carta para Kenji: “Querido Kenji, a avó sente orgulho em ti. Termina o teu serviço com saúde e volta para casa.
” Terminada a carta, olhou a neve a acumular-se no jardim, com um sorriso. O caminho difícil finalmente terminara. A partir dali, só dias calmos e felizes a esperavam. Assim, a história corajosa de Suzuki Riko, de 72 anos, chegou ao fim.
Mas as ondas de mudança que deixou continuariam a espalhar-se. Naquela noite, Riko dormiu profundamente, pela primeira vez em muito tempo, sem preocupações. E, no sonho, Kenji chamava-a com um sorriso radiante.


