O dia da entrevista final na Future Electronics começou de forma comum, mas em segundos transformou-se em algo que ninguém ali conseguiria explicar. A sala de reuniões no 33. º andar estava silenciosa quando a candidata começou a falar. Os cinco entrevistadores, que até então mantinham expressões neutras, mudaram de rosto de uma só vez.

Especialmente o homem sentado ao centro, o presidente Kensuke Saito. A sua pele ficou pálida como se tivesse visto um fantasma. — O nome da sua mãe é Shizuko Suzuki? — perguntou ele, com a voz a tremer.
O ar na sala congelou. O diretor Kimura e os outros executivos olhavam do presidente para a candidata, sem perceber nada. O que estava a acontecer? Porque é que o simples nome de uma mãe abalava daquela forma o presidente de uma grande empresa?
A mulher que ali estava à procura de emprego não fazia ideia de que acabara de tocar numa ferida antiga que o homem carregava há vinte e cinco anos. Dias antes, Misaki Suzuki tinha acordado às cinco da manhã como fazia todos os dias. O pequeno apartamento de um quarto ainda estava escuro. Sobre a mesa, os documentos preparados para a entrevista, organizados na noite anterior até tarde.
Faltavam exatamente três dias para a entrevista final na Future Electronics. Ela levantou-se em silêncio, foi até à cozinha e pôs água a ferver. Enquanto esperava, olhou para a fotografia da mãe na estante. A mãe sorria, com aquele calor de sempre.
— Mãe, desta vez vai dar certo. A rotina de Misaki era dura. Às seis da manhã já estava à porta da biblioteca, numa fila com mais de uma dezena de pessoas. Todos ali procuravam um futuro incerto.
Quando a biblioteca abriu, subiu até à sala de estudo no terceiro andar e sentou-se no lugar junto à janela. Abriu o computador portátil e os ecrãs mostraram uma análise detalhada da Future Electronics. Receitas dos últimos cinco anos, divisões principais, filosofia de gestão, e até artigos de entrevistas com o presidente Saito. Ela estudava o presidente com atenção redobrada.
Um homem que construíra um império a partir do nada. Mas quase não havia informação sobre a vida pessoal dele. Apenas que tinha uma esposa atual, dois filhos, e que casara novamente há vinte anos. Nada mais.
Ao meio-dia, saiu para comprar um onigiri e um copo de ramen instantâneo na loja de conveniência. O mesmo menu de sempre. Para ela, aquilo já era um luxo. Enquanto comia, o telemóvel tocou.
Era a amiga Satoko. — Misaki, não estás a exagerar? Podias descansar um pouco. — Não tenho tempo.
Desde a operação da minha mãe que as contas do hospital não param. Se perder esta oportunidade, não sei o que faço. Satoko suspirou, resignada. — Então cuida da tua saúde.
Se caíres, não serve de nada. Misaki voltou para a biblioteca e passou a tarde a rever perguntas de entrevistas. Porque quer trabalhar na nossa empresa? Quais são os seus pontos fortes?
Onde se vê daqui a dez anos? Perguntas comuns, mas ela preparava cada resposta com o coração. À noite, apanhou dois autocarros até ao hospital onde a mãe estava internada. Ao entrar no quarto, a mãe recebeu-a com um sorriso.
— Estou muito melhor, não te preocupes. Mas Misaki percebia. O rosto da mãe estava mais cansado do que no dia anterior. — Como estão os preparativos para a entrevista?
— Estão ótimos. Desta vez tenho mesmo confiança. Vou passar e vou mudar-te para um hospital melhor. A mãe apertou-lhe a mão.
— Não te esforces demais. A saúde é o mais importante. Depois hesitou, como se quisesse dizer algo. Finalmente, baixinho:
— Misaki, desculpa.
Não tiveste pai. — Não digas isso. Criaste-me muito bem sozinha. Mas os olhos da mãe encheram-se de lágrimas.
Parecia alguém a guardar um segredo antigo, algo que queria dizer mas não conseguia. Na noite anterior à entrevista, Misaki participou numa sessão de estudo com outros candidatos na zona de Marunouchi. Eram cinco, todos à espera da entrevista final na Future Electronics. Rivais, mas também companheiros.
Fizeram simulações de entrevistas. Quando chegou a vez de Misaki, todas as atenções se viraram para ela. — Qual foi o momento mais difícil da tua vida e como superaste? — perguntaram.
Ela respirou fundo. — Quando estava no terceiro ano da universidade, a minha mãe ficou doente. Para pagar a operação, interrompi os estudos e trabalhei em tudo o que aparecia. Noite na loja de conveniência, tradução, o que fosse.
Dormia talvez quatro horas por dia. Mas pela minha mãe, valia a pena. Os outros ouviam em silêncio. Um deles comentou depois:
— As tuas respostas são boas, mas demasiado sinceras.
Isso pode ser uma fraqueza. As grandes empresas preferem respostas mais calculadas. — E o presidente Saito é conhecido por ser difícil. Dizem que faz perguntas agressivas pessoalmente.
Misaki anotou tudo, mas no fundo pensava: prefiro a verdade a uma resposta ensaiada. Mentiras não duram. Depois da sessão, foi até ao edifício da Future Electronics, no coração de Marunouchi. A fachada de vidro brilhava ao pôr do sol.
Funcionários de fato atravessavam a praça em frente, parecendo confiantes. Misaki observou-os e pensou: dentro de alguns dias, talvez esteja a trabalhar com eles. Ou talvez nunca mais volte aqui. Nesse momento, um sedan preto parou em frente ao edifício.
Saito desceu. Misaki reconheceu-o das fotografias, mas ao vivo a presença dele era maior. O presidente entrou, seguido de secretários, e ela ficou a olhar para a porta por onde ele desapareceu. Aquele homem decidiria o destino dela.
Quando voltou para casa, ligou à mãe. A voz da mãe soava fraca. — Os exames de hoje não correram bem. O médico sugeriu um novo tratamento, mas é caro.
Misaki engoliu a preocupação e respondeu com alegria forçada. — Não te preocupes. Vou passar na entrevista. Depois tudo se resolve.
— Sinto muito por te dar tanto trabalho — disse a mãe. — Se eu não existisse, não sofrerias tanto. — Não digas isso. É por ti que eu consigo continuar.
Depois da chamada, vestiu o fato de entrevista e treinou em frente ao espelho. Repetiu as mesmas frases dezenas de vezes, ajustando a expressão e o tom da voz. A tensão crescia à medida que a noite avançava. Do lado de fora, começou a chover.
Abriu a gaveta da secretária e tirou um velho caderno com uma fotografia da mãe, dos tempos em que ela estava saudável. Felizes. Olhando para a foto, fez uma promessa: vou passar e vou fazer a minha mãe sorrir de novo. Às quatro da manhã do dia da entrevista, acordou sem ter dormido bem.
Preparou-se em silêncio. Às sete saiu de casa, com duas horas e meia de antecedência. No metro, tentou rever os apontamentos, mas as letras pareciam não entrar. O coração batia rápido demais.
Chegada a Marunouchi, entrou num café. Enquanto bebia chá quente, mandou uma mensagem à mãe: vou tentar o meu melhor. Não te preocupes. A resposta chegou quase de imediato: a tua mãe acredita em ti.
Às nove e meia, entrou no edifício da Future Electronics. A receção estava cheia de candidatos nervosos. Misaki recebeu a sua senha e esperou na sala. Às dez em ponto, um funcionário chamou o primeiro nome.
Os candidatos saíam das entrevistas com vinte a trinta minutos. Uns com expressões radiantes, outros com olhares vazios. — Misaki Suzuki, pode entrar. Ela respirou fundo e levantou-se.
No elevador, repetiu para si mesma: sê sincera. Não finjas. Quando as portas abriram, seguiu o funcionário pelo corredor até à sala de reuniões. Lá dentro, cinco entrevistadores estavam sentados em fila.
Ao centro, o presidente Saito. A presença dele era esmagadora. — Sente-se, por favor. O diretor de recursos humanos começou com as perguntas de praxe.
Misaki respondeu com calma. Depois o diretor de marketing perguntou sobre estratégias de expansão internacional. Ela apresentou o caso do Sudeste Asiático, falou da importância da adaptação local, das diferenças culturais, da visão de longo prazo. Os executivos assentiam e tomavam notas.
Então o presidente Saito abriu a boca pela primeira vez. — Senhora Suzuki, o que faz o seu pai? A pergunta apanhou-a desprevenida. Mas respondeu com serenidade:
— Não tenho pai.
A minha mãe criou-me sozinha. O olhar do presidente mudou subtilmente. Fez uma pausa e perguntou:
— E a sua mãe trabalha em quê? — Tinha uma pequena casa de refeições, mas agora está doente e não trabalha.
— Qual é o nome da sua mãe? Uma pergunta estranhamente pessoal. Mas Misaki respondeu. — Chama-se Shizuko Suzuki.
O ar na sala congelou. O rosto de Saito ficou branco. A caneta caiu-lhe das mãos. A voz dele hesitava.
— Shizuko… Suzuki? Os outros entrevistadores olharam uns para os outros, confusos. O diretor Kimura olhava do presidente para a candidata sem perceber nada. Misaki também não entendia.
Porque é que o nome da minha mãe causa isto? — A sua mãe é de onde? — perguntou o presidente, esforçando-se por recuperar a compostura. — De Shizuoka.
O rosto dele endureceu ainda mais. Era como se estivesse a enfrentar um fantasma do passado. — A sua mãe trabalhou em Tóquio há uns vinte e cinco anos? — Sim, trabalhou numa empresa, mas nunca me contou detalhes.
O presidente levantou-se. Os outros entrevistadores olharam-no espantados. — Vamos fazer uma pausa. Saiu da sala a passos largos, com o diretor Kimura atrás dele.
Os restantes entrevistadores ficaram em silêncio, trocando olhares. Misaki continuava sentada, sem saber o que pensar. Tinha dito alguma coisa errada? Dez minutos depois, Kimura voltou.
— O presidente não se sente bem. Vamos continuar a entrevista nós próprios. Mas o ambiente estava destruído. As perguntas seguintes foram formais, mecânicas.
Quando a entrevista terminou, Misaki saiu para a rua com a cabeça em turbilhão. A entrevista tinha corrido mal, mas ela não sabia porquê. O telemóvel tocou. Era o hospital.
— A sua mãe piorou repentinamente. Venha imediatamente. Misaki apanhou um táxi e esqueceu completamente a entrevista. No quarto do hospital, a mãe estava deitada com uma máscara de oxigénio.
O médico explicou que ela tivera uma insuficiência respiratória, mas já estava estabilizada. Precisava de tratamento urgente. Misaki apertou a mão da mãe. A mãe abriu os olhos devagar e a primeira pergunta foi:
— Como correu a entrevista?
— Bem. Acho que vou passar. A mãe sorriu, aliviada, e tentou dizer algo, mas começou a tossir. Enquanto isso, no escritório do presidente, Kensuke Saito olhava pela janela.
O diretor Kimura perguntou, hesitante:
— Presidente, está bem? Saito abanou a cabeça. — Kimura, lembras-te de há vinte e cinco anos? — Diz-me, presidente?
— Naquela altura, quando comecei o negócio, amei uma mulher. Chamava-se Shizuko Suzuki. Kimura ficou surpreendido. O passado amoroso do presidente sempre fora envolto em segredo.
— A minha família opôs-se. Não tinha estatuto nem educação, disseram. Acabei por terminar. A voz de Saito estava cheia de arrependimento.
— Só depois de nos separarmos é que soube que ela estava grávida. Mas já era tarde. Ela desapareceu. — Então… a candidata de hoje?
— É uma coincidência, provavelmente. — Saito abriu uma gaveta e tirou uma fotografia antiga. Nele e uma jovem mulher, felizes. — Shizuko tinha vinte e cinco anos se… não, quer dizer, a filha dela teria à volta de vinte e oito.
Quanto disse que tinha a candidata? Kimura consultou os papéis. — Vinte e oito anos. Nasceu em Shizuoka.
Nome da mãe: Shizuko Suzuki. O campo do pai está vazio. As mãos de Saito tremiam. — Kimura, investiga discretamente.
Quero saber se é a mesma mulher. Naquela noite, Misaki sentou-se num banco no corredor do hospital. A mãe dormia. O resultado da entrevista seria certamente negativo.
O presidente tinha saído a meio. O telemóvel tocou. Um número desconhecido. — Fala da Future Electronics.
Poderia comparecer amanhã de manhã para uma entrevista adicional? Misaki ficou sem palavras. Mas aceitou. Depois da chamada, voltou ao quarto da mãe.
A mãe ainda dormia. Misaki segurou-lhe a mão e sussurrou:
— Mãe, chamaram-me para outra entrevista. Desta vez vai correr bem. Nesse momento, a mãe falou durante o sono:
— Kensuke… desculpa.
Misaki congelou. Kensuke. Um nome que nunca ouvira. Na manhã seguinte, Misaki foi levada diretamente ao gabinete do presidente.
Saito estava sentado num sofá, parecendo exausto, como se não tivesse dormido. O ar na sala era pesado. — Desculpe o que aconteceu ontem. Não devia ter saído.
Misaki abanou a cabeça. — Posso fazer algumas perguntas pessoais? — perguntou o presidente. — Sim.
— Alguma vez a sua mãe lhe falou do seu pai? — Não. Só disse que tinha morrido quando eu era pequena. Eu não perguntava para não a magoar.
— Sabe que profissão a sua mãe tinha em Tóquio? — Trabalhava como secretária. Mas deixou o emprego de repente e voltou para a terra natal. O presidente virou-se para a janela.
Os olhos dele estavam vermelhos. Nesse momento, Kimura entrou com um envelope. — Confirmámos, presidente. É a Shizuko Suzuki de Shizuoka.
Saito sentou-se de repente, como se as pernas lhe falhassem. Misaki olhava de um para o outro, confusa e alarmada. — Desculpe, mas podem explicar-me o que está a acontecer? Porque estão a investigar a minha mãe?
Saito levantou os olhos. Havia lágrimas neles. — A sua mãe, Shizuko Suzuki, foi minha secretária há vinte e cinco anos. Nós amámo-nos.
Íamos casar. Mas a minha família opôs-se e terminámos. — Fez uma pausa, como se as palavras fossem difíceis. — Quando me separei dela, soube que estava grávida.
Mas ela já tinha desaparecido. Procurei-a durante vinte e cinco anos. A cabeça de Misaki ficou em branco. — Então… esse filho…
— A sua mãe deu à luz em Shizuoka, há vinte e oito anos.
A data coincide com o seu nascimento. Misaki olhou para os papéis que lhe estendiam. As mãos tremiam. — Mas isso não prova nada.
— Por isso — respondeu Saito —, proponho um teste de ADN. Se for mesmo minha filha…
A voz falhou-lhe. Misaki estava a tentar processar tudo. Passara a vida inteira sem pai.
Agora aparecia um, e ainda por cima presidente de uma grande empresa. — Preciso de falar com a minha mãe primeiro. — Por favor. Ouvi dizer que ela está no hospital.
Posso ir consigo? Quero vê-la depois de vinte e cinco anos. Misaki hesitou, mas o olhar suplicante dele convenceu-a. Uma hora depois, estavam em frente ao quarto do hospital.
Saito parou à porta, incapaz de avançar. Custou-lhe, mas empurrou a porta. Misaki entrou primeiro. — Mãe, trouxe alguém comigo.
A mãe abriu os olhos. Quando viu o homem atrás da filha, o rosto ficou branco. — Kensuke…
A voz mal se ouvia. Saito aproximou-se devagar, os olhos a transbordar.
— Shizuko. Há quanto tempo. A mãe começou a chorar. — Como descobriste?
— A tua filha veio ter comigo. À entrevista. A mãe olhou para Misaki, cheia de culpa. — Misaki, desculpa.
Escondi-te muitas coisas. Misaki apertou-lhe a mão. — Vai ficar tudo bem. Podes contar-me tudo.
A mãe forçou as palavras:
— O teu pai é o Kensuke. Mas não pudemos ficar juntos. A família dele não aceitava alguém como eu. Saito segurou-lhe a mão.
— Shizuko, eu não sabia que estavas grávida. Se soubesse, teria deixado tudo para ficar contigo. O silêncio pesou no quarto. Vinte e cinco anos de separação, dois corações que nunca se esqueceram, e uma filha que crescera sem pai.
A mãe lutou para respirar e continuou:
— Sabia que me procurávamos. Há uns anos, os teus detetives andaram pelo nosso bairro. Mas escondi-me. Queria que a Misaki crescesse normalmente.
Preferia que fosse uma filha anónima a uma filha escondida de um grande empresário. O presidente ficou atónito. — Então evitaste-me de propósito. A mãe assentiu, chorando.
— Disse que o pai dela tinha morrido. Como podia explicar que ele estava vivo e tinha outra família? Kimura entrou no quarto. — Presidente, o hospital está pronto para o teste de ADN, se desejar.
Saito olhou para Misaki. — Faço o teste. Duas horas depois, estavam numa sala de consultas. A mãe descansava no quarto.
Misaki e Saito esperavam em silêncio. O médico entrou com o resultado. — Probabilidade de paternidade: 99,99%. São pai e filha biológicos.
Saito não conteve as lágrimas. De repente, ajoelhou-se diante de Misaki. Todos na sala ficaram paralisados. Um presidente de uma grande empresa ajoelhado.
— Filha, desculpa. Vinte e oito anos longe. Não pude ser pai. Misaki também chorava.
— Não faça isso. Levante-se. Foi a primeira vez que disse a palavra:
— Pai. Saito levantou-se e abraçou-a, com suavidade, como se tivesse medo de a partir.
Vinte e oito anos de espera. — A minha filha. É mesmo a minha filha. Até Kimura limpava os olhos.
Misaki perguntou depois:
— E agora? Se os media descobrirem…
— Tu decides. Podemos anunciar ou manter em segredo. Mas eu quero reconhecer-te publicamente, se estiveres de acordo.
Misaki pensou durante muito tempo. A mudança de identidade, a pressão, a responsabilidade. Mas também a libertação das preocupações com as contas do hospital. — Preciso de tempo para pensar.
E a minha mãe tem de estar envolvida. — Claro. Esperei vinte e oito anos. Posso esperar mais alguns dias.
No dia seguinte, a mãe de Misaki foi transferida para um quarto VIP, com a melhor equipa médica do país. Misaki visitava-a todos os dias. Um dia, entrou e encontrou visitas inesperadas. A esposa atual de Saito, uma mulher elegante de meia-idade, e os dois filhos dele.
— Então és a Suzuki. A filha escondida que apareceu do nada — disse a esposa, com frieza. O filho mais velho sorriu com desdém:
— Apareceu na altura certa, não foi? Deve ser pelo dinheiro.
Misaki manteve a calma. — Não me interessa a fortuna do presidente. Só queria um emprego. A esposa riu-se.
— Não precisas de fingir inocência. Sabemos quanto dinheiro o teu pai já gastou contigo desde que o teste deu positivo. Naquele momento, a porta abriu e Saito entrou. O rosto dele estava frio.
— O que estão a fazer aqui? A esposa respondeu:
— Viemos conhecer a filha que escondeste. — A Misaki é minha filha, sem dúvida. Mas não têm o direito de a tratar assim.
O filho mais velho protestou:
— Pai, isto é um problema de família. Com esta pessoa aqui, a questão da herança…
— Ainda estou vivo e já te preocupas com a herança? — interrompeu Saito. — Vocês viveram à minha custa.
A Misaki passou vinte e oito anos sem pai. Quem é que foi tratado injustamente? A esposa perguntou, afiada:
— Tencionas dar-lhe ações da empresa? — Não.
Se entrar na empresa, será por mérito próprio. É isso que ela quer. Misaki confirmou:
— Exato. Não quero ser tratada de forma diferente por ser filha do presidente.
Quero ser reconhecida pelo meu trabalho. Quando a esposa e os filhos saíram, Saito ficou em silêncio. Misaki perguntou:
— Pai… desculpa ter causado problemas na sua família. Ele abanou a cabeça.
— A família já estava desfeita. Foi construída por conveniência, não por amor. Tu não tens culpa. Dias depois, Saito convocou uma conferência de imprensa.
A sala estava cheia de jornalistas. O escândalo de uma filha escondida era enorme. — Soube recentemente que tenho uma filha de uma relação que tive há vinte e oito anos. Não vou esconder este facto.
A minha filha, Misaki Suzuki, cresceu sem me conhecer, sozinha, e tornou-se uma pessoa extraordinária. Um jornalista perguntou:
— A sua filha vai entrar na empresa? — Se conseguir demonstrar competência, sim. Tal como qualquer candidato.
Caso contrário, seguirá outro caminho. — E a questão da herança? — Isso é algo que decido eu. Mas uma coisa é certa: a Misaki tem direito a estar aqui.
Depois da conferência, Saito encontrou-a no átrio. — Não precisava de ter feito tudo isto — disse Misaki. — Não quero esconder-te. Esperei vinte e oito anos para ser teu pai.
Quero sê-lo abertamente. Dois meses depois, a mãe de Misaki recuperara de forma surpreendente. E Misaki voltou a candidatar-se à Future Electronics. Desta vez, todos sabiam quem ela era.
Os entrevistadores ficaram nervosos, sem saberem como tratá-la. Misaki resolveu a questão:
— Não me tratem de forma especial. Avaliem-me como avaliam qualquer candidato. As perguntas foram duras, mais duras do que era normal.
Como se quisessem testar se ela tinha mesmo valor. Uma semana depois, o resultado chegou: passou. Mas os comentários na Internet não tardaram. “Passou porque é filha do presidente.
” A empresa respondeu com um comunicado: Misaki Suzuki teve a pontuação mais alta de todos os candidatos. Mesmo assim, as dúvidas continuaram. No primeiro dia de trabalho, os jornalistas esperavam-na na entrada. — Como se sente por trabalhar na empresa do pai?
Ela respondeu com firmeza:
— Não entrei na empresa do meu pai. Entrei na empresa onde quero trabalhar. Começo hoje como Misaki Suzuki, funcionária. Foi colocada na equipa de marketing internacional.
Começou pelo fundo, como todos: café, fotocópias, arquivo, organização. O líder da equipa foi claro:
— Senhora Suzuki, aqui ser filha do presidente não significa nada. Prove o seu valor. E era exatamente o que ela queria.
Três meses depois, foi-lhe atribuído um projeto importante: um relatório sobre expansão no Sudeste Asiático. Trabalhou noite e dia, estudou mercados locais, concorrentes, diferenças culturais. No dia da apresentação, todos os executivos estavam presentes. Saito também.
Misaki apresentou com calma, intercalando inglês e chinês. Quando terminou, os executivos aplaudiram. — Um novo funcionário com este nível? Impressionante.
Saito não disse nada. Apenas assentiu. Mais tarde, Misaki foi ao gabinete dele. — Pai, a minha apresentação estava insuficiente?
Ele sorriu. — Não, estava excelente. Mas se eu te elogiar, vão dizer que estou a favorecer a filha. Misaki percebeu.
— Tem razão. Não quero ser reconhecida assim. Saito abriu uma gaveta e tirou um colar antigo. — Isto era da tua mãe, quando era jovem.
Eu dei-lho. Agora quero que seja teu. Misaki pegou no colar. Um pequeno pingente em forma de coração.
— Obrigada, pai. Saito acariciou a cabeça dela. — Tenho orgulho em ti. Não porque és minha filha, mas porque és quem és.
Um ano depois, Misaki foi promovida e escolhida para a delegação na China. Na festa de despedida, um colega mais velho aproximou-se. — No início, confesso que te olhava com desconfiança. Mas agora admito: tens talento de verdade.
Misaki agradeceu. Naquela noite, jantou com os pais num restaurante. Pela primeira vez, os três reunidos como família. A mãe disse:
— Misaki, obrigada por teres crescido tão bem.
O pai acrescentou:
— Shizuko, obrigada por a teres criado tão bem. Misaki segurou as mãos dos dois. — Mãe, pai. Sinto que finalmente somos uma família completa.
Dez anos depois, Misaki Suzuki, agora com trinta e oito anos, era vice-presidente executiva da Future Electronics. Na secretária do seu gabinete, emoldurado, estava o dossier daquela primeira entrevista. O ponto de partida que nunca podia esquecer. Numa manhã, entrou mais cedo.
Era um dia especial. A primeira contratação pública em que participava como entrevistadora. A secretária entregou-lhe a lista de candidatos. Trinta nomes.
Misaki folheou-a e parou num nome: Takuya Kobayashi, vinte e oito anos, licenciado pela Universidade de Tóquio, oriundo de um orfanato. O nome ficou-lhe na memória. Talvez porque se assemelhava à sua história. Antes da entrevista, passou pelo gabinete do pai.
Saito, agora com sessenta e dois anos, continuava imponente. — Estás nervosa? — Um pouco. Mas lembro-me de quando fui eu a sentar-me naquela cadeira.
Ele sorriu. — Agora és tu quem pode dar a oportunidade que recebeste. A entrevista decorreu normalmente. Às duas da tarde, entrou Takuya Kobayashi.
Rosto sério, olhar um pouco inquieto. O fato era simples, mas bem passado a ferro. Quando lhe pediram para se apresentar:
— Chamo-me Takuya Kobayashi. Cresci num orfanato.
Isso não foi um limite, foi o meu motor. Entrei na universidade estudando sozinho e formei-me com bolsa. Misaki sentiu um aperto no peito. Perguntou:
— Qual foi o momento mais difícil da sua vida?
Ele hesitou. — No terceiro ano da universidade, o meu irmão mais novo do orfanato adoeceu com leucemia. Deixei os estudos para trabalhar e pagar o tratamento. Mas ele morreu na mesma.
O silêncio encheu a sala. Takuya continuou:
— Naquela altura percebi como é impotente não ter dinheiro para proteger quem se ama. Por isso estudei mais, e estou aqui. Misaki sentia-se a olhar para um espelho do passado.
Depois da entrevista, na reunião de avaliação, um executivo comentou:
— O candidato tem técnica, mas o histórico é fraco. Sem ligações, sem rede de contactos. Outro concordou:
— Precisamos de pessoas com antecedentes mais estáveis. Misaki respondeu com firmeza:
— Devemos avaliar a competência, não a origem.
Ele tem mais motivação do que qualquer candidato com um passado confortável. Mas os outros ainda hesitavam. Então Misaki levantou-se. — Lembram-se de quando fui eu, há dez anos, nesta mesma posição?
Eu não tinha nada. Era apenas uma candidata sem nome. Mas deram-me uma oportunidade. E hoje estou aqui.
Dias depois, Takuya Kobayashi encontrou o seu nome na lista de aprovados. No telhado do orfanato, chorou sozinho, olhando para o céu. — Irmãozinho, consegui. Estás a ver-me?
No primeiro dia de trabalho, foi colocado na equipa de marketing internacional. Exatamente a mesma equipa onde Misaki tinha começado. O líder avisou:
— Esta equipa foi criada pela vice-presidente Suzuki. As exigências são altas, mas cresce-se depressa.
Takuya trabalhou com uma energia que impressionava. Uma noite, Misaki encontrou-o ainda no escritório. — Ainda a trabalhar? Takuya levantou-se, surpreendido.
— Estou a rever a apresentação de amanhã. Ela olhou para o ecrã: a estratégia de expansão no Sudeste Asiático. — Abordagem interessante. Estudaste bem a cultura local.
Takuya sorriu, envergonhado. — Tive muitos amigos dessa região no orfanato. O que me ensinaram ajudou-me. Misaki sentiu-se tocada.
— Vamos tomar um café? Conheço um sítio onde eu costumava ir quando comecei. No café, Misaki disse-lhe:
— Quando comecei, trabalhei até tarde todas as noites. Tinha muito a provar.
Takuya perguntou, hesitante:
— Vice-presidente, também tinha algo a provar? Sendo filha do presidente…
Misaki riu-se, com um amargor suave. — Talvez por isso mesmo. Muitos achavam que eu só estava ali por ser filha.
Tive de provar que estava lá por mérito. Takuya assentiu. — Sinto o mesmo. As pessoas perguntam como é que alguém de um orfanato chegou até aqui.
Ou se passei por favoritismo. Misaki olhou-o nos olhos. — Não liguem a isso. Provem com trabalho.
Demora, mas no fim reconhecem. A partir daquele dia, foi acompanhando o crescimento dele. E ele crescia depressa. Em três meses, levou a bom porto um projeto importante e conquistou a confiança dos colegas.
Um dia, o pai chamou-a ao gabinete. — Misaki, tenho mais um segredo para te contar. Ela ficou atónita. — Há trinta anos, antes de conhecer a tua mãe, namorei brevemente com outra mulher.
Ela engravidou, mas desapareceu antes de eu saber. Misaki ficou pálida. — Então posso ter mais um irmão? O pai assentiu.
— Soube recentemente que ela morreu. E que deixou a criança num orfanato. — Em que orfanato? Saito entregou-lhe um documento.
— Chama-se Casa da Esperança, em Setagaya. Misaki sentiu o ar faltar-lhe. Era exatamente o orfanato onde Takuya tinha crescido. Durante dias, não soube o que fazer.
A ideia de que Takuya pudesse ser seu irmão perturbava-a. Mas sem certezas, não podia agir. Pediu a Kimura que investigasse os registos. E encontrou algo impressionante: a data em que Takuya fora deixado no orfanato coincidia exatamente com o período do qual o pai falava.
Era preciso mais prova. Misaki convidou Takuya para almoçar. — Takuya, sabes alguma coisa sobre os teus pais biológicos? Ele riu-se com tristeza.
— Nada. A diretora do orfanato disse que uma jovem mulher me deixou lá e nunca mais voltou. Nem uma carta. — Já pensaste em procurá-los?
Ele abanou a cabeça. — Quando era criança, sim. Mas agora não. Quem me abandonou, por que haveria de o procurar?
Vivi bem sozinho. Mas a dor estava lá, nas palavras. Misaki não conseguiu perguntar mais nada. Entretanto, o pai também soube da possibilidade de Takuya ser seu filho.
— Misaki… se aquele rapaz for mesmo meu filho, não o posso perder outra vez. Fizeram um teste de ADN, discretamente, aproveitando um exame médico da empresa. Uma semana depois, o resultado chegou: probabilidade de paternidade de 99,99%. Takuya Kobayashi era filho de Kensuke Saito.
Misaki ficou dividida. Tinha um irmão. Mas ele carregava trinta anos de abandono. Na reunião de família, a mãe de Misaki, já recuperada, perguntou:
— Como vamos dizer-lhe?
Ele passou trinta anos sozinho. Misaki propôs:
— Deixem-me aproximar-me dele primeiro. Como colega mais velha. Depois, com tempo, preparamos o terreno.
E foi o que fez. Começou a passar mais tempo com Takuya, a dar-lhe conselhos, a falar de coisas pessoais. Um dia, ele confessou:
— Vice-presidente, sei que parece estranho, mas sinto-me em paz quando estou consigo. Como se fosse família.
Misaki sentiu o coração apertar. — Eu também. Quando olho para ti, sinto como se tivesses um irmão mais novo. E não mentia.
Na noite de Natal da empresa, Takuya apresentou-se no palco com uma guitarra. — Esta é uma canção que me acompanhou quando eu era criança. Fala de uma pessoa que sonhava encontrar a família. Enquanto tocava, Saito e Misaki olhavam para ele com os olhos húmidos.
Depois da festa, o presidente chamou-o:
— Kobayashi, posso falar contigo? Takuya seguiu-o até ao gabinete, onde Misaki e Shizuko também esperavam. Saito começou, com a voz a tremer:
— Kobayashi, chegou a hora de te contar a verdade. Misaki estendeu-lhe o resultado do teste de ADN.
— Takuya, não te assustes. Tu és filho do nosso pai. És meu irmão. O rosto dele ficou branco.
— O quê? Isso não é possível. Saito aproximou-se. — Desculpa, filho.
Eu não sabia que existias. Se soubesse, nunca te teria deixado sozinho. Takuya recuou. — Mentira!
Eu fui abandonado. Ninguém me quis! A voz dele estalava com trinta anos de dor. Misaki tentou segurar-lhe a mão:
— Não te abandonámos.
Não sabíamos. Agora que te encontrámos…
Takuya afastou a mão. — Agora é tarde! Onde estavam quando eu chorava no orfanato?
Quando ninguém cuidava de mim? Quando o meu irmão estava a morrer? Onde estavam? Saiu do gabinete a correr, aos prantos.
Durante uma semana, não apareceu no trabalho. Misaki encontrou-o no telhado do orfanato onde crescera. — Takuya. Ele nem se virou.
— Porque vieste? Para fazeres de irmã, agora? Misaki sentou-se ao lado dele. — Não.
Só queria estar contigo. Ficaram em silêncio. Depois, Takuya falou, baixinho:
— Eu sei que não têm culpa. Mas é tudo tão confuso.
Passei a vida inteira a acreditar que estava sozinho. Misaki disse:
— Eu também passei por isso. Até aos vinte e oito anos, não sabia quem era o meu pai. Quando o encontrei, senti raiva, rejeição, tudo ao mesmo tempo.
— Como conseguiste aceitar? Misaki sorriu. — O tempo. E percebir que família não é só sangue.
É entender e aceitar o outro. Takuya olhou para ela pela primeira vez. — Ainda posso ser da vossa família? Misaki abraçou-o com força.
— Já és. Quer queiras, quer não. Takuya desatou a chorar. Eram lágrimas de trinta anos.
Dias depois, voltou ao gabinete do presidente. — Ainda não consigo chamar-lhe pai. Mas se me derem tempo…
Saito assentiu, com lágrimas nos olhos. — Toma o tempo que precisares.
Esperei trinta anos. Posso esperar mais. — A minha mãe biológica… por que me abandonou? Saito suspirou.
— Ela estava doente. Sabia que não viveria muito. Deixou-te num lugar seguro, para que tivesses uma chance. E não me contou para não complicar a minha vida.
Takuya chorou mais uma vez. — Então abandonou-me por amor? — Sim. Amava-te tanto que quis que tivesses uma vida melhor.
Um ano depois, Takuya Kobayashi mudou legalmente o nome para Takuya Saito. A empresa ficou surpreendida, mas rapidamente o aceitou como filho do presidente. Continuou a trabalhar como funcionário comum, com a mesma dedicação. Ele e Misaki tornaram-se verdadeiros irmãos.
Trabalhavam juntos em projetos, reuniam-se com a família aos fins de semana. Shizuko tratava de Takuya como se fosse seu filho também. Um dia, Takuya disse a Misaki:
— Irmã, finalmente percebi o que é uma família. — E o que é?
— São pessoas que preenchem os espaços vazios umas das outras. Estamos a preencher os nossos, depois de trinta anos. No septuagésimo aniversário de Kensuke Saito, tiraram a primeira fotografia de família completa. Misaki, Takuya, Shizuko e o pai.
Cada um viera de um caminho diferente, mas ali estava uma família. Takuya disse pela primeira vez:
— Pai, parabéns. Saito chorou. Eram lágrimas de quem esperou uma vida inteira.
O destino é uma coisa estranha. Uma entrevista numa empresa juntou pessoas que estavam separadas havia três décadas. Anos depois, Misaki discursou numa cerimónia para novos funcionários:
— A oportunidade pode surgir dos lugares mais inesperados. Quando fiz a minha entrevista, não imaginava que ia encontrar o meu pai.
E não imaginava que o meu irmão ia fazer a mesma entrevista. Por isso, não desistam. A vossa história está apenas a começar. Os aplausos encheram a sala.
Naquela noite, reunidos à mesa, Saito ergueu o copo:
— O melhor presente da minha vida foram vocês. Chegou tarde, mas chegou. Agora a nossa família está completa. Todos levantaram os copos.
— À família. Lá fora, as luzes de Tóquio brilhavam. A história deles continuaria. Com dificuldades, com dores, talvez.
Mas nunca mais sozinhos. Caminhariam juntos, em nome da família.


